Quem cuida da casa também está pagando
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Quem cuida da casa também está pagando

DuoFiPublicado em 19 de agosto de 2026 14 min de leitura

As horas que um de vocês passa cuidando da casa têm preço: com o piso paulista da categoria em R$ 1.874,36, a hora sai a R$ 8,52. Nas 21,3 horas semanais que as mulheres dedicam a afazeres domésticos (PNAD 2022), são cerca de R$ 907 por mês já pagos — sem aparecer em conta nenhuma.

A planilha de vocês tem aluguel, mercado, luz, streaming. Não tem a segunda-feira em que alguém trocou a roupa de cama, respondeu ao síndico e lembrou de comprar ração. Esse trabalho existe, tem preço de mercado e é pago todo mês por um dos dois — só que em horas, não em Pix. Quando esse valor fica de fora do acordo, o combinado do casal já é uma divisão desigual, só que uma divisão informal que ninguém assinou. Este post põe um número em reais nessas horas, com fonte e data, e mostra como colocá-lo dentro da divisão das contas sem que a conversa vire cobrança. Serve para os dois lados: para quem faz e para quem não tinha reparado que não faz.


O trabalho que ninguém lança na planilha

O IBGE mede isso desde antes de virar assunto de casal. No módulo de Outras Formas de Trabalho da PNAD Contínua de 2022, divulgado em 11 de agosto de 2023, as mulheres de 14 anos ou mais dedicaram em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e/ou cuidado de pessoas. Os homens, 11,7 horas. A diferença é de 9,6 horas semanais — quase uma jornada de trabalho inteira por semana, de um lado só.

Não é só o tempo que separa os dois números. 91,3% das mulheres fizeram alguma tarefa doméstica no período, contra 79,2% dos homens, e a média geral da população de 14 anos ou mais ficou em 85,4%. Ou seja: a maioria dos homens faz alguma coisa em casa. O que muda é o tamanho do turno.

O dado tinha se mexido um pouco desde a medição anterior: em 2019 a diferença era de 10,6 horas semanais, e caiu para 9,6 em 2022. Antes de comemorar, vale ver de onde veio a queda. Segundo Alessandra Brito, analista do IBGE, "não dá para afirmar que a divisão de tarefas ficou mais equilibrada porque, entre os homens, a taxa ficou estável". A distância encolheu porque as mulheres passaram a dedicar menos horas, não porque os homens passaram a dedicar mais.

Tem ainda um detalhe que atinge vocês em cheio, porque fala de morar junto. As mulheres que moram com outras pessoas chegaram a 24,1 horas semanais de afazeres. Os homens que moram sozinhos ficaram em 14,3 horas. Traduzindo: quando um homem passa a morar acompanhado, a carga de casa dele tende a cair; quando uma mulher passa a morar acompanhada, ela sobe. A convivência não distribui a tarefa sozinha — ela costuma empurrar para um lado só, em silêncio, e sem que ninguém tenha decidido isso numa conversa.

Quanto vale uma hora de trabalho doméstico no Brasil em 2026

Para pôr preço nessas horas, o caminho honesto é usar o que o mercado paga por esse mesmo serviço quando ele é contratado. Convenção coletiva da categoria doméstica é rara e regionalizada no Brasil, então a referência mais firme e publicada é o piso estadual, que é lei e tem data.

São Paulo é o caso mais fácil de nomear. A Lei estadual nº 18.471, de 27 de maio de 2026, revalorizou os pisos paulistas e colocou a faixa que abrange empregados domésticos e cuidadores em R$ 1.874,36 mensais, com vigência a partir de 1º de junho de 2026. Fora dos estados com piso próprio, a régua é o salário mínimo nacional: R$ 1.621,00 desde 1º de janeiro de 2026, fixado pelo Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025.

Falta converter isso em hora. A Lei Complementar nº 150/2015, no artigo 2º, define que "a duração normal do trabalho doméstico não excederá 8 (oito) horas diárias e 44 (quarenta e quatro) semanais". A folha de pagamento brasileira converte essas 44 horas semanais em 220 horas mensais — é a mesma conta que sai no holerite de qualquer mensalista.

Com isso, a matemática é direta e vocês podem refazer no celular:

  • Piso paulista: R$ 1.874,36 ÷ 220 h = R$ 8,52 por hora
  • Salário mínimo nacional: R$ 1.621,00 ÷ 220 h = R$ 7,37 por hora

Duas ressalvas, ditas na cara. A primeira: esse valor é estimativa do preço de mercado do serviço, não salário devido a ninguém dentro de casa. Ninguém aqui está contratando ninguém, e nenhum dos dois deve esse dinheiro ao outro. A segunda: é um piso, não um teto. Quem contrata diarista em capital paga bem mais que R$ 8,52 a hora, e o valor de contratar formalmente ainda tem encargos por cima. O número que vamos usar é o mais conservador disponível — de propósito, porque é o mais difícil de contestar numa conversa de casal.

A conta: R$ 907 de um lado, R$ 498 do outro

Agora o cruzamento, que é o ponto deste post. De um lado, as horas medidas pelo IBGE. Do outro, o preço da hora em 2026. No meio, uma multiplicação que quase ninguém faz.

Usando a mesma conversão da folha (44 horas semanais = 220 mensais, ou seja, cinco semanas na régua do salário), as 21,3 horas semanais viram 106,5 horas por mês, e as 11,7 horas viram 58,5 horas por mês. Multiplicando pelo piso paulista de R$ 8,52:

  • 106,5 h × R$ 8,52 = R$ 907,38 por mês — o valor médio do trabalho doméstico feito por mulheres
  • 58,5 h × R$ 8,52 = R$ 498,42 por mês — o mesmo cálculo para os homens
  • A diferença de 9,6 horas semanais, ou 48 horas mensais, vale R$ 408,96 por mês

Fora de São Paulo, com o mínimo nacional de R$ 7,37 a hora, os mesmos números caem para R$ 784,91, R$ 431,15 e R$ 353,76. Continua sendo dinheiro de verdade: pela média do IBGE, um dos dois entrega todo mês algo entre R$ 354 e R$ 409 de serviço a mais que o outro, e isso nunca entrou na planilha de despesas de ninguém.

Vale dizer o que essa conta é e o que ela não é. Ela é uma referência de mercado construída a partir de duas fontes públicas e datadas: uma pesquisa do IBGE e uma lei estadual. Ela não é a média do casal de vocês — a média nacional descreve o país, não a sua cozinha. Se um de vocês cozinha todo dia e o outro cuida de toda a roupa e das compras, o desequilíbrio real pode ser bem menor que 9,6 horas. Pode também ser maior.

Por isso o número tem uma função específica: dar tamanho à conversa. É muito mais fácil discutir "R$ 409 por mês" do que discutir "eu sinto que faço mais coisa aqui". O primeiro tem unidade de medida. O segundo tem tom de voz — e tom de voz é onde a briga começa.

Por que esse número não é uma cobrança

Aqui é onde este assunto costuma descarrilar, então vamos devagar. Colocar preço nas horas de casa não serve para alguém emitir uma fatura. Serve para as duas contribuições aparecerem na mesma unidade, para que a divisão das contas seja feita com informação completa.

Repare que os dados do IBGE não descrevem um vilão. Em 2022, 34,9% das mulheres e 23,3% dos homens cuidaram de alguma pessoa — criança, idoso, alguém doente. A maioria dos homens participa. O padrão é de volume, não de recusa, e ele é herdado: quase ninguém sentou e combinou que ficaria assim. Ficou. A conversa útil não é "por que você não faz", é "como a gente conta o que cada um já faz".

Vale reconhecer também que a carga não cai igual sobre todas as mulheres. Nas Estatísticas de Gênero divulgadas pelo IBGE em 8 de março de 2024, mulheres pretas ou pardas dedicaram 1,6 hora a mais por semana a afazeres domésticos e cuidados do que mulheres brancas. É o mesmo trabalho invisível, distribuído de forma ainda mais desigual.

Há uma armadilha simétrica, e ela merece o mesmo cuidado. Quem trabalha fora mais horas, ou tem deslocamento longo, ou está no turno da noite, também está entregando tempo que não aparece em lugar nenhum. Se o cálculo das horas de casa entra na conversa como argumento de acusação, ele volta como contra-acusação no mês seguinte, e vocês trocaram uma planilha por um tribunal.

O jeito que funciona é chato de tão simples: os dois lados declaram o que fazem, os dois números ficam visíveis, e a divisão do dinheiro é ajustada uma vez — não renegociada toda semana. Um combinado que precisa ser defendido todo mês não é combinado, é pauta permanente de discussão. E o objetivo aqui é o oposto disso: resolver e parar de falar no assunto.

Como colocar as horas de casa na divisão das contas de vocês

O passo a passo abaixo usa números fictícios e limpos, para vocês trocarem pelos de casa.

1. Somem as rendas e as contas da casa. Digamos que um de vocês ganhe R$ 4.500 e o outro R$ 7.500. Renda do casal: R$ 12.000. As contas compartilhadas — aluguel, condomínio, luz, internet, mercado — somam R$ 3.600 por mês.

2. Dividam pela renda, não meio a meio. Quem ganha R$ 4.500 representa 37,5% da renda do casal e fica com R$ 1.350. Quem ganha R$ 7.500 representa 62,5% e fica com R$ 2.250. Isso já é mais justo que 50/50, porque o mesmo R$ 1.800 pesa muito mais no bolso menor.

3. Meçam as horas de casa por duas semanas. Não precisa de app de cronômetro. Cada um anota, no fim do dia, quanto tempo levou o que fez: cozinhar, louça, roupa, compras, contas a pagar, levar o pet ao veterinário. Duas semanas bastam para o padrão aparecer.

4. Ponham preço na diferença. Se um faz 21,3 horas semanais e o outro 11,7 — a média nacional do IBGE —, a diferença é de 48 horas por mês. A R$ 8,52 a hora, dá R$ 408,96.

5. Ajustem a divisão das contas por esse valor. Quem faz menos horas em casa assume R$ 409 a mais das contas compartilhadas. Fica assim:

A tabela abaixo mostra o mesmo mês de contas nos três arranjos possíveis, para vocês verem quanto muda de fato.

ArranjoQuem ganha R$ 4.500 pagaQuem ganha R$ 7.500 paga
50/50R$ 1.800R$ 1.800
Proporcional à rendaR$ 1.350R$ 2.250
Proporcional + horas de casaR$ 941R$ 2.659

6. Escrevam o combinado em algum lugar que os dois vejam. Essa é a parte que mata as planilhas: alguém precisa manter, e ninguém mantém. No duofi, vocês cadastram as duas rendas, o app divide as contas do mês na proporção certa e cada contribuição fica visível para os dois — inclusive o ajuste das horas de casa, lançado como parte do que cada um cobre. Sem planilha, no celular, e sem misturar tudo numa conta só: seu, meu, nosso.

Onde essa conta engana — e o que fazer mesmo assim

Nenhum número resolve casamento, e este tem limites que é melhor dizer antes que alguém descubra no meio de uma discussão.

O primeiro limite é a média. As 21,3 horas e as 11,7 horas do IBGE são retrato do Brasil em 2022, não de vocês em 2026. O módulo de Outras Formas de Trabalho nem foi investigado em 2020 e 2021 por causa da pandemia, e voltou em 2022 — então a série tem buraco, e a comparação disponível é com 2019, quando a diferença era de 10,6 horas. Usem a média nacional como ponto de partida e substituam pelas horas medidas em casa assim que tiverem duas semanas de anotação.

O segundo limite é a hora que não é igual. Uma hora dobrando roupa no sofá vendo série não custa o mesmo que uma hora de mercado com criança de dois anos junto. O cálculo trata todas como equivalentes porque o piso da categoria trata, e trocar isso por uma tabela de dificuldade transforma o acordo num regulamento — que ninguém vai seguir.

O terceiro é a carga mental, que o cronômetro não pega. Lembrar que o boleto vence dia 10, que acabou o sabão, que a consulta do dentista é semana que vem: esse trabalho não tem hora de início e não entra em nenhuma das 21,3 horas. Ele existe e pesa. Não dá para precificar com honestidade, então o jeito é nomear na conversa e deixar explícito quem carrega.

O quarto: renda muda. Promoção, freela que acabou, alguém que saiu do emprego para estudar. A proporção de hoje envelhece rápido, e o combinado precisa de revisão em data marcada — a cada seis meses resolve, e evita a renegociação eterna.

Mesmo com esses quatro furos, a conta continua valendo mais que a alternativa, que é não ter conta nenhuma. Com R$ 409 na mesa, vocês estão discutindo um valor. Sem ele, estão discutindo quem é mais injusto com quem — e essa é uma conversa que ninguém ganha.

Perguntas frequentes

Quanto vale o trabalho doméstico não remunerado no Brasil?

Pela média do IBGE (PNAD Contínua 2022) e pelo piso paulista da categoria em vigor desde junho de 2026, as 21,3 horas semanais dedicadas por mulheres valem cerca de R$ 907 por mês, e as 11,7 horas dos homens, cerca de R$ 498. É estimativa do preço de mercado do serviço, não valor devido a ninguém.

Como dividir as contas considerando quem cuida da casa?

Dividam as despesas compartilhadas na proporção das rendas e, depois, transfiram para quem faz menos horas em casa o valor equivalente à diferença de horas. No exemplo deste post, R$ 409 por mês.

Isso significa que um cônjuge deve dinheiro ao outro?

Não. O cálculo é referência para a conversa do casal, não obrigação legal. Nenhuma lei brasileira converte tarefa doméstica em crédito entre cônjuges no dia a dia do casamento.

E se os dois trabalharem fora em tempo integral?

A conta é a mesma. As horas de casa continuam sendo trabalho e continuam desiguais na maioria dos lares — a diferença medida em 2022 foi de 9,6 horas semanais, entre pessoas ocupadas e não ocupadas.

Precisa de planilha para manter isso?

Não, e é justamente a planilha que costuma morrer no terceiro mês. Combinado que sobrevive é o que os dois veem sem precisar abrir arquivo.

Próximo passo

Peguem o papel do mercado, escrevam as duas rendas e as contas do mês, e façam a divisão proporcional hoje mesmo — leva dez minutos. Depois anotem por duas semanas quem faz o quê em casa e ajustem o valor. Se quiserem que o combinado fique visível para os dois sem virar tarefa de alguém, criem o casal de vocês no duo-fi.com: dá para começar de graça, com até 50 transações por mês e 2 metas, e o plano pago é R$ 14,90 por mês ou R$ 119 por ano — o casal todo, não cada um, com 7 dias grátis e sem cartão. Comecem hoje. Briguem por outras coisas.

Fontes: IBGE — PNAD Contínua 2022, Outras Formas de Trabalho, divulgada em 11/08/2023 · Lei paulista nº 18.471, de 27/05/2026 (Assembleia Legislativa de São Paulo) · Decreto nº 12.797, de 23/12/2025 — salário mínimo de R$ 1.621,00


Escrito pela equipe duofi, app de finanças para casais. Última atualização: 15 de agosto de 2026.

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