Morar junto: as contas do primeiro mês
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Morar junto: as contas do primeiro mês

DuoFiPublicado em 02 de julho de 2026 14 min de leitura

O primeiro mês morando juntos custou R$ 29.532 na nossa conta para um casal em São Paulo: R$ 4.032 de contas recorrentes, R$ 7.500 de caução e R$ 18.000 de mobília. O aluguel é só 8,5% disso. E o total só fica justo dividido pela renda de cada um.

Vocês orçaram o aluguel. Fizeram a conta de quanto sobra do salário de cada um, olharam o valor do apê e falaram "dá". O aluguel é o número fácil, porque está anunciado. O que quebra o primeiro mês são as sete linhas que ninguém coloca na planilha antes de assinar o contrato — e três delas só existem uma vez, no mês um, exatamente quando a conta bancária de vocês dois está mais magra. Abaixo está a soma feita com tarifa real, cidade nomeada e data de consulta. Depois, a parte que interessa: esse total dividido pela renda de cada um, que não é meio a meio.


As sete linhas que aparecem no primeiro mês

A lista completa cabe em sete itens: aluguel, condomínio, luz, água, gás, internet e IPTU. Some caução e mobília e vocês têm o mês um inteiro. Nenhum desses itens é surpresa isolada — a surpresa é a soma.

Antes de qualquer número, uma nota de honestidade sobre o método. Neste post existem dois tipos de valor. Os verificados têm fonte nomeada, data e link: a tarifa de água, o preço do gás, a média de internet, a alíquota do IPTU, o teto da caução. Os declarados são escolhas nossas para a conta fechar — aluguel de R$ 2.500, condomínio de R$ 600, imóvel de R$ 500 mil de valor venal, conta de luz de R$ 190 antes do reajuste. Troquem os declarados pelos de vocês; os verificados valem para qualquer casal em São Paulo.

Um dado ajuda a calibrar o consumo de energia. Segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026 da EPE, publicado em 3 de junho de 2026 com ano-base 2025, a classe residencial brasileira consumiu 179,65 TWh distribuídos por 84.518.613 unidades consumidoras. Dividindo um pelo outro, dá 2.126 kWh por ano, ou cerca de 177 kWh por mês por domicílio — essa é a média do país, e um apê de casal sem ar-condicionado costuma orbitar ali.

Repare no que isso significa na prática: vocês não vão pagar a soma das duas contas de luz que pagavam separados. Vão pagar uma conta só, de um domicílio só, com uma geladeira em vez de duas. Algumas linhas caem quando o casal junta o endereço. Outras não caem nada — internet é uma, IPTU é outra. E as que só aparecem uma vez, caução e mobília, são justamente as maiores.

Luz: a conta que subiu 9% em julho

A energia é a linha mais volátil da casa e a que envelhece mais rápido em qualquer texto. Em São Paulo, quem distribui é a Enel Distribuição São Paulo, e a ANEEL aprovou o reajuste anual dela com efeito médio de 10,18%, vigente a partir de 4 de julho de 2026. Para quem está ligado em baixa tensão — residências e pequenos comércios —, o aumento foi de 8,97%, segundo o comunicado da própria Enel; a InfoMoney, em 30 de junho de 2026, reportou 9,02% para a subclasse residencial especificamente.

Isso não é um evento isolado de São Paulo. Sandoval Feitosa, diretor-geral da ANEEL, deu a projeção nacional em entrevista à CNN Brasil publicada em 16 de março de 2026. Segundo Sandoval Feitosa, "Para 2026, a nossa previsão é que as tarifas de energia elétrica cresçam, em média, 8%. É maior que o IPCA e o IGPM e preocupa". Na mesma entrevista ele aponta o motivo: os encargos setoriais devem crescer 300% entre 2011 e 2026, contra cerca de 158% da tarifa média de distribuição. O IPCA projetado pelo Boletim Focus para o ano estava em 4,1%.

Aqui a gente para e assume a limitação. No dia 15 de agosto de 2026, procuramos a tabela homologada da Enel SP para a subclasse B1 residencial e não conseguimos abrir o valor em R$/kWh em fonte primária aberta — o PDF da resolução homologatória não abre em texto e a página pública de tarifas da distribuidora traz só o Grupo A, de alta e média tensão. Então não inventamos um número: na soma, a luz entra como valor declarado de R$ 190, que é o que vocês devem substituir pela última fatura de verdade. O que é verificado é o reajuste. Aplicando os 9,02% de 4 de julho sobre R$ 190, a linha vai para R$ 207,14.

É pouco dinheiro no total do mês, e é por isso mesmo que ele engana. A luz não quebra o primeiro mês. A luz corrói o terceiro, o quarto e o décimo segundo, sempre um pouquinho acima do que vocês lembravam.

Água, gás e internet: as três que vocês subestimam

Essas três somam menos de R$ 310 no nosso cenário, e mesmo assim são as que mais aparecem em briga de casal — porque são as que ninguém combinou quem paga.

Água. A Sabesp aplica reajuste desde 1º de janeiro de 2026, autorizado pela Arsesp. O Poder360, em 2 de dezembro de 2025, publicou o número e a tabela: reajuste de 6,11%, e a faixa residencial de 11 a 20 m³ passou de R$ 6,01 para R$ 6,40 por metro cúbico. Assumindo 15 m³ no mês para o casal — consumo declarado, dentro dessa faixa —, dá R$ 96,00 de água. Atenção a uma pegadinha da fatura: a linha de esgoto é cobrada à parte, então confiram o boleto de vocês antes de fechar o orçamento.

Gás. Se o apê não tem gás encanado, é botijão. A ANP acompanha o preço semanalmente, e na semana de 19 a 25 de abril de 2026 o preço médio de revenda do P-13 no Brasil foi de R$ 114,61. Da composição desse valor, R$ 39,18 são preço do produtor, R$ 19,11 são tributo estadual e R$ 52,09 são margens de distribuição e revenda. Um casal costuma gastar um botijão em mais de um mês — mas no mês um vocês compram um inteiro, então ele entra cheio: R$ 114,61.

Internet. Aqui a referência boa é a receita média por usuário da banda larga fixa. A Anatel apurou R$ 97,81 de ARPU no terceiro trimestre de 2025, número publicado pela TELETIME em 14 de janeiro de 2026 — e o preço médio por gigabyte caiu 17,24% no período, de R$ 0,29 para R$ 0,24. É a única linha da casa que ficou mais barata. Some taxa de instalação e aluguel de roteador e o primeiro boleto vem maior que os seguintes.

Três contas, R$ 308,42. Cada uma delas cabe num "depois a gente vê". Juntas, elas são 12% da conta recorrente do casal.

IPTU e caução: as que só aparecem uma vez

Estas duas são o motivo de o primeiro mês ser diferente de todos os outros.

IPTU. Em São Paulo, imóvel construído usado como residência paga 1% do valor venal, com acréscimos e descontos por faixa definidos pela Lei 6.989/1966, alterada pela Lei 15.889/2013. A Prefeitura de São Paulo mantém a regra pública: imóveis residenciais dos padrões A, B ou C com valor venal de até R$ 260 mil são isentos do predial; entre R$ 260 mil e R$ 390 mil há desconto automático na base de cálculo; e, desde a Lei 18.330 de 11 de novembro de 2025, o aumento anual do imposto para residenciais tem teto de 10%.

Com valor venal declarado de R$ 500 mil, o cálculo é direto: 1% dá R$ 5.000 por ano, ou R$ 416,67 por mês. Se vocês alugam, olhem o contrato — o IPTU quase sempre é repassado ao inquilino, e ele chega em cota única em janeiro ou parcelado o ano inteiro. Nas duas formas, é dinheiro que sai da conta de vocês.

Caução. É a linha que mais assusta e a que tem a regra mais clara. O artigo 38, §2º, da Lei 8.245/1991 — a Lei do Inquilinato — determina que a caução em dinheiro não pode exceder o equivalente a três meses de aluguel, e que ela seja depositada em caderneta de poupança, com o rendimento revertendo ao inquilino no fim da locação. Sobre um aluguel declarado de R$ 2.500, o teto legal é R$ 7.500.

Guardem esse detalhe da poupança. A caução não é dinheiro perdido, é dinheiro preso — e corrigido. Isso muda como vocês devem tratá-la na conversa: não é despesa, é capital de giro do casal parado por 30 meses. Se o proprietário pedir mais de três aluguéis em dinheiro, a lei está do lado de vocês.

Mobília: a maior linha, e a mais mal orçada

Este é o item mais frágil deste post, e a gente prefere dizer isso na cara. Custo de mobiliar varia com padrão de consumo de um jeito que nenhuma tarifa varia: dá para montar um apê com marketplace e herança de família, e dá para gastar o preço de um carro.

A referência publicada e datada que usamos é do Catraca Livre, em reportagem de 13 de fevereiro de 2026. Ela estima que mobiliar uma casa de 60 a 80 m² em padrão simples a intermediário custa de R$ 25 mil a R$ 60 mil, e abre por ambiente: sala de estar de R$ 4.000 a R$ 12.000; cozinha de R$ 7.000 a R$ 20.000; quarto de casal de R$ 5.000 a R$ 15.000; banheiro de R$ 2.000 a R$ 6.000 por unidade; lavanderia de R$ 2.000 a R$ 6.000.

O primeiro apê de casal costuma ser bem menor que 60 m². Então em vez de usar a faixa cheia, somamos só os quatro ambientes que um apê de um quarto tem, no piso de cada faixa: sala R$ 4.000 + cozinha R$ 7.000 + quarto de casal R$ 5.000 + banheiro R$ 2.000 = R$ 18.000. Somando os tetos das mesmas quatro linhas, dá R$ 53.000. É essa a régua honesta: de R$ 18 mil a R$ 53 mil, e o lugar de vocês dentro dessa faixa depende de quanto do enxoval vem de presente, de brechó ou de parcelamento.

Na soma abaixo entra o piso, R$ 18.000, porque é o cenário mais enxuto que ainda é uma casa habitável. Se vocês forem comprar geladeira nova, sofá novo e cama nova no mesmo mês, subam essa linha antes de assinar o contrato — e não depois.

A soma: R$ 29.532 no primeiro mês

Juntando tudo, para um casal em São Paulo, com consulta feita em 15 de agosto de 2026:

LinhaValor no mês 1De onde vem
Aluguel + condomínioR$ 3.100,00declarado por nós
Luz (R$ 190 + 9,02% de 4/jul)R$ 207,14reajuste Enel/ANEEL
Água (15 m³ × R$ 6,40)R$ 96,00Sabesp/Arsesp, jan/2026
Gás (1 botijão P-13)R$ 114,61ANP, abr/2026
InternetR$ 97,81Anatel, 3º tri/2025
IPTU (1% de R$ 500 mil ÷ 12)R$ 416,67Lei 6.989/1966
Recorrente por mêsR$ 4.032,23
Caução (3 aluguéis)R$ 7.500,00Lei 8.245/1991, art. 38
Mobília (piso, 4 ambientes)R$ 18.000,00Catraca Livre, fev/2026
Total do mês 1R$ 29.532,23

Três leituras saem daí. A primeira: o primeiro mês custa 11,8 aluguéis. A segunda: mesmo tirando caução e mobília, a conta recorrente é R$ 4.032,23, e o aluguel é 62% dela — as outras seis linhas somam R$ 1.532,23 por mês, mais de meio aluguel, todo mês, para sempre. A terceira, a que dói: se vocês trocarem o piso da mobília pelo teto, o mês um vai para R$ 64.532,23.

Nada disso é motivo para não morar junto. É motivo para não descobrir o número em setembro, com o boleto na mão. E agora vem a pergunta que esse total obriga: quem paga quanto disso?

A divisão que faz esse total caber: pela renda, não meio a meio

Meio a meio parece justo até alguém ganhar mais. Peguem o recorrente de R$ 4.032,23 e um casal onde uma pessoa ganha R$ 6.000 e a outra R$ 4.000 — renda somada de R$ 10.000, ou 60% e 40%.

Ganha R$ 6.000Ganha R$ 4.000
Meio a meioR$ 2.016,12 (33,6% da renda)R$ 2.016,12 (50,4% da renda)
ProporcionalR$ 2.419,34 (40,3%)R$ 1.612,89 (40,3%)
Diferença−R$ 403,23+R$ 403,23

A conta é a mais simples do mundo: R$ 4.032,23 × 0,60 = R$ 2.419,34 e R$ 4.032,23 × 0,40 = R$ 1.612,89. Quem ganha 60% da renda do casal cobre 60% da casa. Os dois passam a comprometer os mesmos 40,3% do que ganham, e sobra proporcionalmente o mesmo para cada um viver.

No meio a meio, quem ganha R$ 4.000 entrega metade do salário para a casa enquanto o par entrega um terço. A diferença é de R$ 403,23 por mês, R$ 4.838,76 por ano — quase dois aluguéis. E sobre o mês um inteiro, os R$ 29.532,23, a diferença entre dividir meio a meio e dividir pela renda é de R$ 2.953,23 para quem ganha menos. Mais de um aluguel, numa tacada só, logo na mudança.

O incômodo raramente aparece como "isso é injusto". Aparece como a pessoa que ganha menos evitando propor o jantar fora, ou ficando quieta quando o outro sugere um sofá melhor. Fazer essa conta uma vez, à mão, resolve. Refazer toda vez que uma renda muda, num mês em que vocês estão montando a casa, é o que ninguém sustenta — a planilha de casal costuma morrer no terceiro mês por isso. É exatamente essa parte que o duofi faz sozinho: vocês colocam a renda de cada um, lançam a despesa da casa, e o app já mostra quanto cabe a cada um. Sem planilha, sem conta conjunta, sem ninguém precisar cobrar ninguém.

Perguntas frequentes

Quanto custa morar junto por mês, depois do primeiro?

No nosso cenário em São Paulo, R$ 4.032,23 por mês — aluguel de R$ 2.500 declarado, mais R$ 1.532,23 de condomínio, luz, água, gás, internet e IPTU. A regra prática que sai da conta: some ao aluguel mais 60% dele para chegar no custo real da casa.

Quanto o proprietário pode pedir de caução?

Se for caução em dinheiro, no máximo três aluguéis, e depositada em poupança em nome do inquilino — é o artigo 38, §2º, da Lei 8.245/1991. Sobre R$ 2.500, o teto é R$ 7.500, com o rendimento voltando para vocês no fim do contrato.

Dá para montar o apê gastando menos de R$ 18 mil?

Dá, e é assim que a maioria começa. O piso de R$ 18.000 sai da soma dos valores mínimos de quatro ambientes na reportagem do Catraca Livre de 13 de fevereiro de 2026. Presente de chá de casa nova, móvel de família e compra parcelada ao longo de seis meses derrubam esse número bastante — o que muda é o quanto sai no mês um.

Por que a conta de luz aqui é um valor declarado e não uma tarifa?

Porque não conseguimos abrir a tabela homologada da Enel SP para a subclasse residencial em fonte primária no dia 15 de agosto de 2026. Preferimos declarar a limitação a estimar um R$/kWh. O que está verificado é o reajuste de 8,97% na baixa tensão, vigente desde 4 de julho de 2026.

Próximo passo

Peguem o total de vocês, somem a renda dos dois e apliquem a proporção — hoje, antes da mudança. Se quiserem que essa conta se refaça sozinha todo mês, comecem grátis em duo-fi.com: o plano pago é R$ 14,90 por mês para o casal todo, não por pessoa, com 7 dias grátis e sem cartão.

Fontes primárias consultadas em 15 de agosto de 2026: reajuste tarifário da Enel Distribuição São Paulo · tarifa da Sabesp autorizada pela Arsesp · cálculo do IPTU da Prefeitura de São Paulo.


Escrito pela equipe do duofi, o app de finanças para casais que divide as contas pela renda de cada um. Todas as tarifas citadas foram consultadas em fonte aberta em 15 de agosto de 2026 — tarifa de energia é reajustada uma vez por ano, então confiram a data antes de reusar os números. Última atualização: 15 de agosto de 2026.

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